Coleção Hermelindo Castelo Branco - o maior acervo de canções brasileiras já reunido!

Um acervo com mais de 6.000 partituras brasileiras para canto e piano, contendo composições desde o século XIX até obras contemporâneas – este é o legado do pianista e tenor Hermelindo Castelo Branco (1922-1996).


Capa do programa do recital de Hermelindo Castelo Branco no Hotel Glória (Rio de Janeiro) em 18/07/1960, contendo o retrato a óleo do músico, por Aurélio D’Alincourt

Segundo informações levantadas pelo pesquisador Lenine Santos, o maranhense Hermelindo Castelo Branco (cujo primeiro nome era originalmente escrito com dois “l”s, mas depois ele próprio adotou a grafia com um “l”) iniciou seus estudos de piano aos 7 anos em São Luís. Depois, no Rio de Janeiro, continuou seus estudos com Graziella de Salerno no Conservatório Brasileiro de Música, e, nos anos seguintes, veio a aprofundar seu treino vocal com os professores Maximiliano Hellman, Vanda Oiticica e Honorina Barra.

Na década de 1950, passou a trabalhar como arquivista do Tribunal de Contas da União, e, em 1968, foi transferido para Brasília, onde se tornaria professor da Escola de Música, atuando também como pianista correpetidor, cantor e técnico vocal do Madrigal de Brasília.

Ao longo dos anos, Hermelindo intensificou seu interesse pela canção brasileira, e passou a adquirir partituras das mais variadas fontes. Muitos compositores contemporâneos, como Neusa França, Helza Camêu, Babi de Oliveira, Marlos Nobre e Murilo Santos, lhe enviavam partituras de suas canções, com elogiosas dedicatórias, para que integrassem seu acervo, e Hermelindo com frequência realizava a primeira audição destas canções em recitais no Rio e em Brasília, tanto como tenor como pianista.


Dedicatória de Babi de Oliveira a Hermelindo Castelo Branco na capa da partitura de sua canção “Recomendação”

Hermelindo também buscava ativamente partituras raras em bibliotecas e acervos particulares de todo o Brasil, e frequentemente fazia cópias manuscritas quando não era possível obter xérox do documento.

Na verdade, mais de 50% do acervo é composto de manuscritos, sejam eles autógrafos (escritos do próprio punho dos compositores), ou cópias manuscritas. Mas Hermelindo ia um passo além: quando a canção só existia na forma de melodia, ele escrevia uma excelente parte para piano, completando o arranjo da peça na forma de canção de câmara. Pelo menos 140 manuscritos da coleção têm sua parte de piano escrita por Hermelindo.


Trecho de “Tu és o lírio”, de Joaquim Sant’Anna e letra atribuída a Luiz do Couto, com parte do piano escrita por Hermelindo Castelo Branco

Com isso, muitas obras tidas como desaparecidas agora estão vindo à tona, como é o caso da modinha "O retrato", de Henrique Alves de Mesquita, e a polca "Suzana", de Irineu de Almeida.

Hermelindo também herdou partituras de outros acervos, como os dos músicos Tarquínio Lopes, Graziella de Salerno, Gilmar Bandeira e Babi de Oliveira – a pasta referente à compositora Babi de Oliveira é a maior do acervo, contendo centenas de manuscritos, edições raras, correspondência e programas de concerto. Hermelindo e Babi foram grandes amigos, e dividiram muitos recitais juntos.

Já outras partituras remontam ao início do século, tendo passado provavelmente por mais de um proprietário, como por exemplo uma partitura com dedicatória autografada de Francisco Braga a Julieta Telles de Menezes.


Dedicatória manuscrita de Francisco Braga a Julieta Telles de Menezes

Seu interesse pela canção brasileira era amplo e praticamente irrestrito. Lá estão presentes desde modinhas do século XIX até obras de compositores contemporâneos como Jorge Antunes e Ricardo Tacuchian, passando por canções provavelmente completas de compositores como Carlos Gomes, Glauco Velasquez, Villa-Lobos, Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Lorenzo Fernandez, Hekel Tavares, Osvaldo Lacerda e José Siqueira, harmonizações do folclore e de cantos indígenas (de autores como Helza Camêu e Aloysio de Alencar Pinto), canções populares (de Joubert de Carvalho, Catullo da Paixão Cearense, e outros), e uma infinidade de autores sobre quem ainda não se sabe praticamente nada. 


Da esquerda para a direita: Graziella de Salerno, Raimundo Neto, Eugenio Gomes, Tarquinio Lopes, Luis Bruno, Dora Valinho, Dulce Adelia, Nelson Simas, Zelina Maria e Léa Moreira. Sentados: Babi de Oliveira e Hermelindo Castelo Branco. Auditório da rádio PRA-2, Rio de Janeiro. Foto publicada na Revista Fon-fon!, em 25/03/1950.

Seus conhecimentos de arquivista o levaram a criar uma coleção extremamente organizada, com pastas separadas por compositor em ordem alfabética, e frequentemente com as informações de cada música anotadas por ele em uma capa extra. É o trabalho de alguém profundamente apaixonado pela música brasileira, que deixou um legado sem preço. Na verdade, é um dos maiores acervos de canção de todo o mundo.

Este inacreditável acervo ficou guardado com a família de Hermelindo até 2016 (20 anos após sua morte), quando foi doado à Casa do Piano, em Brasília, dirigida por Rogério Resende. Rogério entrou em contato o Instituto Piano Brasileiro, propondo que todo o acervo fosse digitalizado por nós, ao que aceitamos imediatamente.

Ao longo de seis meses, as 30.000 páginas de partituras do acervo foram digitalizadas. Simultaneamente, realizamos uma catalogação básica de todo o material, listando nome do compositor e nome do letrista, título da música, eventuais arranjadores e se se tratava de um manuscrito ou não.

Este serviço hercúleo de catalogação, que acaba de ser concluído, foi realizado pelo nosso grande colaborador, o pianista Douglas Passoni de Oliveira, e tudo foi revisado por Alexandre Dias.

Agora, com grande satisfação, o IPB divulgará a listagem completa do acervo (dividida em várias partes), e disponibilizaremos para download todas as partituras que estiverem em domínio público.

Este acervo tem o potencial de literalmente revolucionar a pesquisa em canção brasileira, além de poder suprir material para festivais, recitais, gravações e cursos de música.

Com o intuito de ampliar o alcance deste material no meio acadêmico, iniciamos uma parceria com o professor Lenine Santos, da UFPel, que, sabendo da importância do acervo, criou o grupo de pesquisas cadastrado no CNPq “APHECAB: Acervo de partituras Hermelindo Castello Branco – catalogação, análise, interpretação e divulgação do repertório de canção de concerto do Brasil”, que é integrado por professores de universidades de diversos estados.

Nos próximos posts, divulgaremos a listagem completa do acervo de Hermelindo Castelo Branco, que será dividida em várias partes. Todas as partituras que se encontrarem em domínio público estarão disponíveis para download direto.

Parte 1 - Letra A

Boas pesquisas!

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Alexandre Dias

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