naturalidade
Aracati, Ceará
fontes
Comunicação pessoal com Georges Mirault, filho de Aloysio de Alencar Pinto

Comunicação pessoal com Giulio Draghi

Depoimento de Jacques Klein ao Museu da Imagem e do Som

Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Verbete “Jacques Klein” (online). http://dicionariompb.com.br/jacques-klein

Entrevista de Jacques Klein a Clarice Lispector em 1971. http://blogln.ning.com/profiles/blogs/clarice-lispector-entrevistas-4

Freitas, Serge Menge de. Texto no programa de concerto da Semana Jacques Klein, Escola de Música da UFRJ, 10 a 13 de julho de 1990.

Gonzaga, Gabriel. As Duas Faces de Jacques Klein. Blog “Girando no prato” (online). https://girandonoprato.com.br/2014/07/14/as-duas-faces-de-jacques-klein/

Gravações do ciclo “A arte de Jacques Klein”, produzido e apresentado por Lauro Gomes, e transmitido pela Rádio MEC em 2007.

Marcondes, Marcos A. (org) - Enciclopédia da Música Brasileira (2ª ed., 1998). Verbete “Jacques Klein”.

Músicos do Brasil: Uma Enciclopédia. Verbete “Jacques Klein” (online).

Nobre, Maria Luiza. O pianista do toque dourado. Coluna “Sol maior” publicada pelo Jornal do Brasil (online). http://www.jb.com.br/sol-maior/noticias/2011/07/07/o-pianista-do-toque-dourado/

O Globo. Morto precocemente em 1982, pianista cearense Jacques Klein é lembrado em concurso. http://oglobo.globo.com/cultura/morto-precocemente-em-1982-pianista-cearense-jacques-klein-lembrado-em-concurso-3158883

Programa de concerto de Jacques Klein no Theatro Municipal de São Paulo em 19 de junho de 1954

Sampaio, Marcos. As praias de Jacques Klein. O Povo online. http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/12/14/noticiasjornalvidaearte,3176636/as-praias-de-jacques-klein.shtml

Senise, Arnaldo. Encarte do CD “Jacques Klein”, Volume XIV da Série Grandes Pianistas Brasileiros (Masterclass).

Site oficial do Concurso Internacional de Música de Genebra. http://www.concoursgeneve.ch/
Atualizado em 22.12.2016
VERBETE

Jacques Klein

N. 10 de Julho de 1930
F. 24 de Outubro de 1982
Por André Pédico e Alexandre Dias

Nasceu em Aracati, Ceará, em 10 de julho de 1930, e iniciou seus estudos ainda criança por estímulo de seu pai, Alberto Klein, pianista amador e entusiasta da arte musical. Em 1936, a família Klein mudou-se para Fortaleza, onde o menino Jacques foi matriculado no curso de piano da professora Julieta Araripe, no Conservatório Alberto Nepomuceno, do qual Alberto Klein foi um dos fundadores em 1938, além de também ter fundado e presidido a Sociedade de Cultura Artística de Fortaleza. Aos seis anos, Jacques já interpretava diversos compositores, e tocou para importantes pianistas em passagem pela cidade, como Guiomar Novaes, Nikolai Orloff e Ignaz Friedman.

Em 1940, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, e, aos nove anos, Jacques ficou em primeiro lugar em concurso no Conservatório Brasileiro de Música, vindo a estudar com Liddy Chiaffarelli Mignone (1891-1962) de 1940 a 1943. Aos 13 anos, interrompeu seus estudos de música clássica, e passou a se dedicar exclusivamente à música popular, organizando, em 1946, um trio de jazz juntamente com Dinarte Rodrigues (guitarra) e Breno Porto (bateria), que se apresentava semanalmente na Rádio Jornal do Brasil.

Aos 18 anos, sua vida mudou após ouvir o 2º Concerto de Rachmaninoff em um filme - provavelmente I've Always Loved You (Sempre te amei), de 1946, com dublagem musical de Arthur Rubinstein. Aprendeu a música de ouvido, pois na época não tinha mais a prática de ler partituras, e retomou os estudos de piano clássico, passando a ter aulas particulares com Aloysio de Alencar Pinto (1911-2007), que lhe ensinou o dedilhado de Orloff para esta obra, e também com os professores Ophelia do Nascimento, Oscar Adler, e Lúcia Branco (1903-1973).

Em 1948, mudou-se para Nova York para ter aulas com Isidor Philipp (1863-1958), por sugestão de Guiomar Novaes, porém teve pouca identificação com o professor, e voltou ao Brasil para se dedicar à carreira diplomática. Seis meses depois, decidiu investir novamente na carreira de pianista, e retornou a Nova York para estudar com o pianista americano William Kapell (1922-1953), por indicação de Aloysio de Alencar Pinto. Consta que, nesta época, durante uma jam session no clube Cafe Society, tocou para o lendário jazzista Art Tatum, quando o pianista Billy Taylor convidou Jacques para subir ao palco. Klein interpretou o choro Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, e o standard de jazz How High The Moon, causando grande impressão, que chegou a ser registrada na imprensa local.

Posteriormente, em 1952, por influência de Friedrich Gulda, transferiu-se para Viena (Áustria), onde passou a se aperfeiçoar com Bruno Seidlhofer (1905-1982) na Academia de Música de Viena. Após oito meses de estudo, classificou-se em segundo lugar no Concurso Internacional de Piano, em Munique (Alemanha), e, em setembro de 1953, venceu por unanimidade o Concurso Internacional de Música de Genebra (Suíça), competindo com 114 concorrentes de 33 países. Algumas das obras que interpretou durante o concurso foram a Abertura Francesa de J. S. Bach, a Sonata Op.111 de Beethoven, a Balada No.4 de Chopin, e o Concerto No.1 para piano e orquestra de Tchaikovsky. Tal premiação mostrou-se surpreendente, uma vez que o primeiro prêmio não era concedido desde 1949 (de 1946 a 1953, o concurso, que era anual, conferiu o primeiro prêmio a apenas três músicos na categoria para pianistas). Até então, Jacques jamais havia tocado um concerto em público, e, a partir deste momento, passou a desenvolver uma expressiva carreira internacional, apresentando-se com distintas orquestras, tais como as Filarmônicas de Londres, Berlim, Nacional de Paris, Santa Cecília de Roma, Estocolmo, Oslo, Munique, Budapeste e Nova York, as Sinfônicas de Viena, Hannover e Chicago, e a Orquestra Sinfônica Brasileira. Em junho de 1954, fez sua estreia como concertista no Brasil. Tocou sob a regência de maestros como Kurt Masur, Zubin Mehta, Eleazar de Carvalho, Henrique Morelenbaum e Isaac Karabtchevsky. Sua estreia nos Estados Unidos foi em 1959 no Carnegie Hall, interpretando o 3º Concerto para piano e orquestra de Rachmaninoff com orquestra sob regência de Eleazar de Carvalho, sendo aclamado pela crítica, que por vezes chegou a compará-lo a Vladimir Horowitz e a Arthur Rubinstein. Nesta ocasião, os compositores russos Shostakovitch e Kabalevski estavam presentes na plateia. Também se apresentou diversas vezes em turnês na América do Sul, além de tocar em países como Israel e África do Sul.

Entre 1947 e 1955, gravou no Brasil sete discos 78-RPM com músicas de Dorival Caymmi, George Gershwin, Henrique Hazan, e standards de jazz como Singin' in the rain e It had to be you, estas últimas integrando o Sinter Trio. Nesta época, também gravou pela Sinter dois LPs intitulados “Música de Dorival Caymmi na interpretação de Jacques Klein” (1953), com José Menezes (Guitarra), Juvenal (Contrabaixo) e Vadinho (Bateria); e “Ouvindo Jacques Klein na magia da sua sensibilidade” (1954). Foram 30 faixas gravadas nesta época, todas dedicadas ao repertório popular. Em 1962, gravou mais duas faixas lançadas pela Philips no LP “Recordando Carlinhos Guinle”, com as músicas Valerá a Pena, de Caymmi, e uma nova gravação de Nesta Rua Tão Deserta, ambas com acompanhamento de orquestra regida por Carlos Monteiro de Souza.

Em 1955, recebeu a Medalha Harriet Cohen, em Londres, sendo considerado o melhor pianista do ano. Também foi agraciado com a Medalha do Centenário de Paderewski, em Londres (1960), e a Medalha Carlos Gomes, do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará.

Em 1956, apresentou-se a dois pianos com Friedrich Gulda no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, interpretando obras de Mozart, Schubert, Camargo Guarnieri, Ravel e Brahms.

Na década de 1960, foi jurado das edições de 1961 e 1965 do Concurso Nacional de Piano da União dos Músicos do Brasil. Em 1964, apresentou em uma mesma noite o Concerto No.5 de Villa-Lobos, o Concerto para dois pianos de Mozart (com a pianista Glória Maria da Fonseca Costa) com a Orquestra Sinfônica Brasileira sob regência de Henrique Morelenbaum. Neste ano também apresentou os Quadros em uma exposição, de Mussorgsky. Em 1966, gravou o Concerto No.2 de Rachmaninoff e o Concerto No.1 de Tchaikovsky com a Orquestra Brabants (também conhecida como Orquestra Europa), sob regência de Hein Jordans, sua única gravação comercial dedicada ao repertório de concerto lançada durante sua vida. Também solou o Concerto sobre formas brasileiras de Hekel Tavares, com orquestra sob regência de Henrique Morelenbaum em Manaus, provavelmente nesta década.

Em 1970, por ocasião das comemorações do bicentenário de Beethoven, executou o ciclo completo das 32 sonatas em Londres, Amsterdã, Frankfurt e Rio de Janeiro (Sala Cecília Meireles). Também possuía grande afinidade com as obras de Mozart, cujas sonatas e concertos para piano interpretava com frequência.  

Paralelamente a sua atividade de concertista, continuou a apresentar-se em shows de música popular. Em 1971, por exemplo, realizou uma temporada no Canecão, no Rio de Janeiro, juntamente com Chico Buarque, o conjunto vocal MPB4, e a OSB sob regência de Isaac Karabtchevsky.

A partir da década de 1970, foi duas vezes diretor da Sala Cecília Meireles e um dos diretores da Orquestra Sinfônica Brasileira. Como camerista, integrou o Trio Continental juntamente com Cussy de Almeida (violino) e Peter Dauelsberg (violoncelo), além de se apresentar em diversos países com o violinista italiano Salvatore Accardo (1941).

Lecionou na Escola de Música da UFRJ (no programa de mestrado), no Conservatório Brasileiro de Música, e na Universidade de Miami (EUA). Entre seus diversos alunos, destacam-se Arnaldo Cohen (1948), Luiz Medalha, Edson Elias (1947-2008), Egberto Gismonti (1947), Luiz Eça (1936-1992), João Carlos Martins (1940), João Carlos Assis Brasil (1945), Lilian Barreto, Estela Caldi, Maria Helena de Andrade, Luiz Fernando Benedini, Giulio Draghi (1959), Maria Teresa Madeira (1960), e Clélia Iruzun (1963). Os regentes Isaac Karabtchevsky (1934) e Henrique Morelenbaum (1931), em depoimentos à Rádio MEC, consideraram fundamental a influência de Klein no desenvolvimento de suas carreiras.

Em 1975, tocou os concertos No.1 e No.2 de Brahms em uma mesma noite, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) sob regência de Eleazar de Carvalho, evento que foi filmado pela TV Cultura. 

Em 1979, gravou pela Eldorado o LP “Evocação”, em duo com o pianista Ezequiel Moreira, com obras de Zequinha de Abreu arranjadas para dois pianos por Francisco Mignone a pedido de Klein.

Foi casado com a pianista Cesarina Riso, com quem teve uma filha, Daniela. Jacques e Cesarina formavam um duo de piano, que por vezes se apresentava em público. Em 1956, por exemplo, tocaram em primeira audição a música Sai sai (2ª versão), de Francisco Mignone, para dois pianos, no Golden Room do Copacabana Palace.

Faleceu prematuramente aos 52 anos, em 24 de outubro de 1982, no Rio de Janeiro, vitimado pelo câncer. Seu último concerto ocorreu no dia 27 de setembro do mesmo ano, interpretando o Concerto para piano e orquestra em ré maior de Haydn, com a Orquestra de Câmara de Moscou, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Algumas das peças dedicadas a ele foram a Sonata No.4 de Claudio Santoro, a Valsa No.2 de Camargo Guarnieri, e o Estudo transcendental Op.2 No.3 de Lourdes França.

Em 1983, foi lançado postumamente um LP com gravações inéditas do pianista interpretando, em Washington, as duas últimas sonatas de Beethoven (Op.110 e Op.111).

Em julho de 1990, foi homenageado com a Semana Jacques Klein, organizada por Sérgio Menge de Freitas na Escola de Música da UFRJ, com exposição produzida por Arlete Monck (MIS), Paulo Eleutério de Albuquerque e Marluce Baruki, recital com participação dos pianistas Sérgio Tavares, Sérgio André e Guilherme Quintaes, e mesa redonda que contou com a participação de Aloysio de Alencar Pinto, Cesarina Riso, Cláudio Vettori, Daniela Klein, Heitor Alimonda, Homero Magalhães, Isaac Katabtchevsky, Jacqueline Klein, Lílian Barreto, Luiz Paulo Sampaio, Mordehay Simoni, e Robert Fuchs.

Suas interpretações do repertório clássico resistem, especialmente, em uma série de gravações não-comerciais ao vivo resgatadas por Lauro Gomes para o ciclo de programas “A Arte de Jacques Klein”, transmitido pela Rádio MEC em 2007, onde se nota a presença de compositores como Mozart, Haydn, Beethoven, Chopin, Brahms, Prokofieff, Ravel e Rachmaninoff.

Em 2009, foi o homenageado do 1º Concurso Internacional BNDES, que ocorreu na Sala Cecília Meireles. O Centro de Música Latinoamericana da Universidade de Indiana (EUA) outorga o Prêmio Jacques Klein para a melhor interpretação de uma peça solo brasileira, em sua memória.