Depoimento de Nelson Freire, para a inauguração do IPB (parte 2)

Continuação da entrevista realizada com Nelson Freire no dia 23 de julho de 2015, em sua residência no Rio de Janeiro. (Leia a parte 1 aqui)

AD – As gravações da Guiomar causam impacto até hoje. E felizmente têm sido preservadas por um público constante de fãs.

NF - Não foi sempre assim, não. Esse reaparecimento da Guiomar começou porque há um crítico na Europa que é grande fã dela, e grande fã meu, o Alain Lompech. Foi ele que passou a falar sempre nela. Então começaram a se dar conta, lá fora, na Europa. Nos Estados Unidos, não tanto. Ela está mais conhecida hoje em dia na Europa do que nos Estados Unidos. É engraçado. [Em outro momento da entrevista, Nelson nos mostra um cartão enviado a ele por Guiomar Novaes: “Caro Nelson, muito agradeço seu lindo cartão, do sol da meia noite [enviado da Noruega]. Enquanto você se diverte com este sol, nós aqui nos deliciamos com o sol do crepúsculo, pintando maravilhas no céu carioca. (...) pelo seu contínuo sucesso. Quem bom você voltar breve. Saudades, e a todos um abraço. 1971. P.S. Como anda a situação de discos na Europa?”].


Cartão de Guiomar Novaes a Nelson Freire, com a dedicatória: "Ao querido Nelson, com os mais sinceros votos de completa felicidade e uma grande carreira. 16/9/59. Guiomar Novaes Pinto" 

AD – Mas no Brasil, felizmente, o nome dela tem sido preservado atualmente, com lançamento de livros e alguns CDs.

NF – Dentro do possível...

AD -  A discografia da Guiomar é bastante grande, começando no final da década de 1910 e terminando em 1974, com seu único disco brasileiro. Você, como grande conhecedor dessa discografia, indicaria quais gravações para alguém interessado em conhecer a arte da Guiomar?

NF – [pausa] É tão difícil... Acho quase todas as suas gravações, a grande maioria, interessantes. São interessantes também porque correspondem a diferentes períodos. Há gravações antigas fantásticas, dos anos 1920 [pela Victor]. Ela tem também outras maravilhosas, dos anos 1940, da Columbia: Triana [de Albéniz], 3ª Balada [de Chopin], Toccata de Bach em ré maior [BWV 912]. Nos long-plays [da década de 1950], também há muitas coisas belíssimas. Inclusive na gravação dos Noturnos, de que ela não gostava nada, mas que também têm coisas interessantes. Mesmo as duas gravações que ela não queria que saíssem de jeito nenhum, a do 1º [Concerto] de Chopin e o 5º [Concerto] de Beethoven – ela não autorizou e mesmo assim foram lançadas. Mesmo essas são interessantes. Mas há algumas extraordinárias, como aquele disco de encores [peças de bis] da Vox, é uma maravilha, onde estão Bach-Siloti [Prelúdio em sol menor] e as peças de Gluck [melodia de Orfeu e Eurídice, e o Capricho sobre árias de Alceste], fantásticos.

AD – A transcrição do Sgambati você costuma tocar de bis, mas você já tocou a de Saint-Saëns? (sobre melodias do balé Alceste)

NF – Toquei uma vez, mas é muito difícil (risos). É o tipo de coisa que tem que ser tocada como ela tocava. Papillons de Schumann, as Cenas infantis, o Concerto também (as duas versões). E é magnífico... A prova disso são as gravações diferentes do 4º [Concerto] de Beethoven – acho que têm dois anos de diferença – [sob regência de Klemperer e Swarowsky] e as gravações do Concerto de Schumann também (com Klemperer e Swarowsky), e que são completamente diferentes. As gravações dela ao vivo também são fantásticas. Ainda bem que isso foi preservado... Com o [George] Szell, Concerto Jeunehomme de Mozart [No.9, K. 271], e o 4º de Beethoven, 2º de Chopin [Nelson se refere a gravações não-comerciais que foram feitas da plateia ou gravadas a partir de transmissões de rádio]. Outro dia o Stephen Bishop-Kovacevich esteve aqui, e eu pus pra ele ouvir uma dessas gravações, e ele disse “mas eu não sabia que ela era uma pianista tão fantástica assim!”. Tem algumas sonatas de Chopin ao vivo que também são incríveis, a da Marcha Fúnebre [Sonata No.2], em Atlanta [15/11/1968].

AD – Eu me lembro de ter lido críticas da época que diziam que ela praticamente encarnava o Beethoven; quando ela tocava Beethoven, tornava-se algo inimaginável.

NF - Ela encarnava todos eles. Conhece essa história engraçadíssima? Um fã chegou para ela, e disse: “Ah D. Guiomar, seu Beethoven é como se a senhora o encarnasse, seu Chopin é de uma poesia, seu Debussy são cores infinitas, seu Mozart... como é que a senhora faz tudo isso?”, ela olhou para ele e disse “Está tudo escrito!” (risos).

AD – Você mencionou os diferentes períodos na carreira da Guiomar. Do ponto de vista interpretativo, que diferenças você enxerga entre eles? Por exemplo, qual seria a diferença do seu modo de tocar em 1966, quando gravou a Sonata Op.111 de Beethoven, e em 1946, quando gravou a Toccata em ré maior de Bach?

NF – Ah, eu não sou crítico para falar assim… É difícil dizer. Um disco dela que eu adoro é o da Decca [de 1963, com peças de Chopin, Debussy e Liszt]. [Ouçam aqui a gravação da Rapsódia Húngara No.10 deste LP]. Ela podia ter gravado tanta coisa... Lá nos Estados Unidos eles gravavam todos os concertos. Tanto é assim que agora estão saindo as gravações do Horowitz, fantásticas [caixa com 41 CDs lançada pela Sony, com recitais ao vivo no Carnegie Hall]. Faziam o acetato na hora. E a Guiomar tinha tudo isso, só que, com o clima aqui do Brasil, tudo virou poeira. Então ela devia ter a Sonata [No.3] de Brahms, a Mephisto Valsa [de Liszt]...


Capa do LP "Guiomar Novaes ‎– Plays Chopin Liszt Debussy" lançado pela Decca em 1963.

AD – Virou poeira?

NF – Poeira, o acetato. O disco dos Prelúdios de Chopin, recital de 1949 [no Town Hall em NY], é uma maravilha. Esse disco estava com o Ciro [Dias]. Ele me emprestou uma vez e eu passei uma tarde inteira limpando, em São Paulo, porque ia se perder também.

Bem [sobre a diferença entre os períodos da Guiomar], é a diferença que todas as pessoas têm. Todo mundo evolui de uma certa maneira. Você ganha umas coisas, perde outras. É uma evolução natural, e tudo foi muito natural na Guiomar. Ela nunca quis ser o que não era. Então ela toca de acordo com a idade que ela tem.

AD – Você sentiria que ela estava mais madura, mais profunda?

NF – Em certas coisas sim, existe uma transformação. Mas isso com todo mundo acontece. Eu acho que ela sempre foi Guiomar. Talvez o frescor das primeiras gravações tenham dado lugar a uma intensidade dramática mais acentuada nos últimos anos. Mas sua música é sempre inconfundível e ao mesmo tempo surpreendente. Que sorte eu ter nascido em 1944 e não anos mais tarde. Conhecer e ouvir Guiomar pessoalmente foi um privilégio.

AD – Certa vez você comentou que gosta de comparar as gravações de grandes pianistas do passado e conhecer o que já foi feito em cada peça. O Carnaval de Schumann tocado por Rachmaninoff, por exemplo, é uma das gravações que você mais admira. Você poderia listar outras gravações que lhe agradam de grandes pianistas históricos, coisas que lhe causam interesse?

NF – Muitas. Bem, do Rachmaninoff quase tudo. Inclusive as pecinhas que ele toca, como o Ferreiro Harmonioso [de Handel]. Uma coisa incrível. [Arthur] Rubinstein eu acho fantástico. Esse é outro também, um pouco estilo Guiomar. As gravações dele [de cada período], nele você pode ver mais ainda as diferenças. Três sets de Noturnos [de Chopin] de diferentes épocas, Mazurcas, Valsas e tudo.

AD – Os concertos de Brahms pelo Rubinstein você gosta?

NF – Não tanto [sobre o Concerto No.2]. Esse Concerto de Brahms, a primeira vez que eu ouvi foi no concurso [de 1957, no Rio de Janeiro], com o Fernando Lopes, 1º movimento. Mas foi graças à Nise [Obino] que eu o estudei. Ela dizia “é o rei dos concertos!”. Ela me lançava um desafio: “mas não é para você...”. Ela falava de propósito, sabendo que... A primeira gravação que ouvi deste concerto foi do [Wilhelm] Backhaus. O primeiro [Concerto de Brahms] eu adoro com o Rubinstein [na gravação com o Fritz Reiner]. Mas eu o vi também tocar ao vivo. Esses pianistas todos tinham uma coisa...

AD – O [Josef] Lhévinne...

AF -  O Lhévinne acho pirotécnico. Mas aquele Danúbio Azul [que ele gravou na transcrição de Schulz-Evler] é maravilhoso. Gosto mais do [Benno] Moiseiwitsch, gosto do [Ignaz] Friedman.

AD – O que você mais gosta pelo Friedman, aquele Noturno Op.55 No.2 [de Chopin]?

NF - Tem umas Canções sem palavras [de Mendelssohn], tem umas Mazurcas [de Chopin]. Aquele Noturno é imbatível [Op.55 No.2]. Aliás, o Horowitz disse que era a melhor gravação de piano que existe. O Horowitz eu adoro.

AD – O que você gosta pelo Horowitz?

NF – Adoro o Horowitz! Ele é único. Não há ninguém que se lhe compare, é hors concours.

AD – Você mencionou o Concerto de Beethoven No.5, o Imperador [pelo Horowitz]. Coisas da década de 50, 40, de que você mais gosta? Ou depois da volta de 1965?

NF – Ele voltou meio despirocado (risos)!

AD -  A Sonata No.2 de Rachmaninoff em 1980?

NF – É incrível. E também Mozart, em um dos últimos discos que ele fez para Deutsche Grammophon, com a Serenata de Schubert [transcrita por Liszt]. Um som, uma coisa incrível. Qualquer gravação que a gente ouve dele também tem essa coisa que a Guiomar tinha. É sempre um impacto. Ele tinha, sei lá, tudo. Não era só técnica. Era um temperamento, uma inteligência também. Adoro as entrevistas dele. Tive o privilégio de ouvi-lo ao vivo, no 3º [Concerto] de Rachmaninoff.

AD – Eu me lembro de que certa vez você comentou que foi ouvi-lo com um amigo, que ficava falando “você ainda não ouviu nada, espera só...”.

NF – Isso foi uma história que o Stefan Askenase contava, acho – ele ouviu um recital do Horowitz no Carnegie Hall, e ele já tinha tocado [de bis] o Estudo Patético [de Scriabin], Stars and Stripes Forever, Carmen [transcrições do próprio Horowitz], e havia um amigo do lado dele que ficava falando “você ainda não ouviu nada! Não ouviu nada!” (risos).

AD – Consta que em 1979 você estava na plateia com a Martha Argerich quando o Horowitz tocou o Rach 3.

NF – Em 1978. Foi a rentrée dele [com Eugene Ormandy]. Depois ele tocou com o Zubin Mehta. Eu e a Martha combinamos de ir. Foi incrível. Foi também a primeira vez, e foi mais do que a gente esperava. Foi um choque.

AD – Costuma-se dizer que nesta época ele já não tinha mais aquela técnica [aos 75 anos].

NF – Mas ninguém tem aquela técnica. Mesmo sem técnica, o som, a eletricidade, o tocar dele tem uma coisa – não sei se o martelo bate de outro jeito. O pedal dele é uma coisa impressionante também. A construção, o temperamento, acho fantástico.


Capa do CD em que Horowitz interpreta o 3º Concerto de Rachmaninoff, para piano e orquestra.

AD – Houve alguma outra vez em que você ouviu Horowitz?

NF – Sim, em Paris, um recital em 1985. [ouça aqui ao recital completo, gravado da plateia]

AD – Além de Guiomar Novaes, você conheceu diversos grandes pianistas ao longo da sua carreira, como Arthur Rubinstein, Nikita Magaloff, Vladimir Horowitz...

NF - Shura Cherkassky...

AD – Que interessante. No documentário [dirigido por João Moreira Salles], você lembra o encontro que teve com o Rubinstein já bastante idoso em que tocou para ele o Prelúdio Op.32 No.12 do Rachmaninoff.

NF – Comecei com isso.

AD – Ah, você tocou outras coisas?

NF – A tarde inteira.

AD – E ele ficou ouvindo com muito prazer.

NF – Muito. Mas, foi o seguinte, a Martha tocou o 3º [Concerto] de Rachmaninoff em Paris com o [Mstislav] Rostropovich, e o Rubinstein foi a um dos concertos, e depois do último concerto, que seria de manhã, a convidou para almoçar lá. Eu estava com ela, e ela disse: “vem também”. Eu fui.

AD - Na casa dele em Paris.

NF – Na casa dele em Paris, Avenue Foch. Então houve o almoço, estava ele com sua mulher, a polonesa [Aniela], e a outra, Annabelle [Whitestone], as duas estavam juntas. As duas assumindo serem a “Frau Rubinstein”. Mas a Nela se vingava da outra falando com ele em polonês, que a outra não entendia (risos). Tinha um piano de cauda inteira, Steinway, que foi presente de Israel, e ele já não tocava mais – estava quase cego, praticamente cego. Um almoço incrível, e ele falou do 3º do Rachmaninoff, que ele tinha ouvido pouco, uma vez com o [Emil] Gilels e outra “com a pessoa menos indicada para tocar este concerto, Alicia de Larrocha!” (risos) “com aquela mãozinha”. E então houve o almoço, com caviar, champagne, vodka e blinis com caviar, e sour cream. Depois pintade, aquela galinhazinha d’angola e, no fim, sobremesa. E depois do almoço ele quis me ouvir. Ele já tinha tomado vodka e falou "Vous êtes le seul que je n’ai pas encore entendu" (você é o único que ainda não ouvi)Ele já me conhecia de nome. Então uma delas, não sei se foi Annabelle, disse “olha, é o único prazer que ele tem hoje – ele não está tocando mais – é ouvir”. Então sentei ao piano e toquei o Prelúdio Op.32 No.12 [de Rachmaninoff]. Ele falou “você me fez gostar deste prelúdio”. Toquei o Carnaval [de Schumann] inteiro para ele. Comecei com o Préambule, ele disse “continue, continue...”. Toquei o Noturno de Chopin, toquei muito Villa Lobos. E ele perguntou de todo mundo daqui, não dos mais famosos, mas perguntou “E o [Heitor] Alimonda? E o [Francisco] Mignone?”, etc. Ele se lembrava de todos eles daqui. Porque antigamente eles vinham e passavam meses no Brasil, e faziam amizades. Foi uma tarde inesquecível para mim, realmente maravilhosa.

AD – Você se lembra de outros pianistas históricos que você tenha conhecido, tido algum contato? Porque o Rubinstein nasceu no século XIX, a Guiomar também. Magaloff seria outro antigo.

NF – Magaloff, claro. O Shura [Cherkassky]. A Youra Guller, que foi uma personagem, da mesma idade da Guiomar, colegas – há inclusive um programa das duas tocando a dois pianos.

AD – Sonata de Mozart [K. 448]?

NF – Não. A Guiomar tocou o 4º [Concerto] de Beethoven com orquestra, e a Youra tocou o Mozart em dó maior [Concerto No.21 K.467] e depois as duas tocaram variações de Saint-Säens sobre um tema de Beethoven [do 3º mov. da Sonata No.18]. A Youra foi uma grande pianista.

AD – E como foi o contato com ela?

NF - Ela era amiga da Martha, eu a conheci, e ficamos muito amigos. Não fez carreira, mas conhecia todo mundo. Ela tocou com [Albert] Einstein [que era violinista], o Horowitz gostava, assistia aos concertos dela. Depois ela foi para Hong Kong, para Xangai, foi dançar – uma existência bem diferente. E depois tocou de novo.

AD – E com o Cherkassky, como foi o encontro com ele?

NF – Há uma entrevista dele que é engraçadíssima, em Amsterdã, você vai adorar. [link]

AD – Você o conheceu em concertos, viu-o tocando?

NF – Sim, ele veio ao Brasil. Almoçou lá em casa.

AD – Vocês conversaram em que língua?

NF – Em inglês. Ele era muito engraçado. Ele estudou com [Josef] Hoffmann. 

AD – Recentemente você lançou pela Decca um excelente CD inteiramente dedicado a compositores brasileiros. Nele estão incluídas peças que você toca há algum tempo, como as Toccatas do Camargo Guarnieri e Claudio Santoro, e outras que não costumamos ver em seus programas, como os Três Estudos em forma de Sonatina [de Lorenzo Fernandez], que agora já sei que você tocou quando era adolescente, e New York Skyline de Villa-Lobos. Como foi o processo de escolha de repertório? Alguma dessas peças foi aprendida especialmente para o CD ou todas essas peças você já tocava?

NF – Uma coisa é tocar em público e outra é ler [ao piano em casa]... Eu desenvolvi uma leitura à primeira vista muito boa, e sou muito curioso também. Em Viena diziam que eu não estudava, mas adorava comprar música [partituras]. Por exemplo, se tenho de preparar um programa, chega uma hora que eu preciso tocar outra coisa. Eu fico com vontade de me divertir também com a música.


Capa do CD "Brasileiro - Villa-Lobos & friends" (Decca)

AD – Você tem uma coleção grande de partituras

NF - Você viu que o piano está cheio de música [Nelson nos mostrou inclusive uma partitura do Concerto No.2 para piano de Radamés Gnattali]. Vive assim. Divirto-me tocando essas coisas. Então essas músicas brasileiras também, faziam parte das minhas diversões. Algumas já tinha tocado em público e outras, não. Umas que eu já tinha tocado, inclusive, não incluí. Como a Dança do Índio Branco, as Impressões Seresteiras [ambas de Villa-Lobos], toquei-as muito quando era jovenzinho. A Dança de negros, do Fructuoso Vianna, e a Sonatina [No.3] do Guarnieri também não incluí. Mas outras, sim.

AD – Então a escolha foi com base em peças que você gostava e já tocava.

NF – Sim.

AD - A Decca não teve nenhuma influência.

NF - Nenhuma. Nem conheciam.

AD – A comemoração dos seus 70 anos em 2014 viu uma série de novos lançamentos como os recentes CDs contendo o Imperador de Beethoven e a Sonata Op.111, e o Concerto No.2 de Chopin. Antes destes, vieram discos dedicados a Liszt, Debussy, Brahms, Schumann, Beethoven e outros de Chopin. Essa é provavelmente a fase da sua carreira em que você tem produzido mais gravações, praticamente uma por ano, com grande sucesso. Como tem sido o processo de preparação de um disco? O repertório é 100% proposto por você? E há algum indicador que você use para saber quando o repertório está pronto para ser gravado?

NF – Eu devo gravar agora um disco Bach. Eu gosto de mudar de estilo, não gosto de fazer sempre a mesma coisa, me aborrece. Se eu toco muito repertório romântico, então tento sair um pouco [deste estilo]. Por isso acho também que recital de piano deve ser uma coisa variada, se não é muito entediante chegar lá e ouvir o mesmo estilo o tempo todo.

 
Capas de CDs recentes de Nelson Freire lançados pela Decca, dedicados a Chopin e Beethoven.

AD – Então a cada ano você vai buscando um estilo diferente.

NF – Sim. E as peças eu escolho, e em comum acordo escolhe-se o tema do disco, o compositor. E isso às vezes vai mudando até na hora de gravar o disco. Quando gravei o disco Liszt, por exemplo, toquei uma porção de coisas que não estavam previstas.

AD – A Rapsódia [Húngara] No.3 por exemplo?

NF – Sim.


Capa do CD "Nelson Freire - Liszt - Harmonies du Soir" (Decca)

AD – A Rapsódia No.3 foi uma surpresa para nós.

NF – Para mim também! Porque eu tive que fazer esse disco, e eu tinha tido tendinite, em 2010. Então, como poderia tocar a Mephisto ou as Rapsódias? Então comecei a escolher coisas que poderia tocar naquelas condições. Eles até acharam o repertório muito especial, diferente do que as pessoas estavam fazendo. Vai passando por várias etapas. No CD Bach, por exemplo, mudei de ideia não sei quantas vezes. Toco isso, não toco isso, toco a Partita? (risos)

AD - Partita No.2?

NF – No.4. Finalmente resolvi.

AD – E terá transcrições, Busoni, Myra Hess?

NF – Sim, um pouquinho. Mas a maioria é original. Uma Partita, uma Suíte inglesa, a Fantasia cromática...

A – Parte desses lançamentos incluiu um notável CD duplo contendo gravações de seis concertos gravados entre 1968 e 1979 para rádios europeias, que até então só eram conhecidas por alguns colecionadores afortunados. Na entrevista a James Jolly, transcrita no encarte, você afirma que muitas gravações tiveram que ficar de fora dessa seleção. Você poderia mencionar algumas dela?

NF – Olha, há o segundo de Brahms, com Horst Stein, que é bem diferente, mas não saiu por que já tem [em nova gravação lançada pela Decca em 2006, com Chailly]. É aquela história, você toca de acordo com a tua idade. É bem diferente da gravação com a regência do Chailly. É bem viril, dos anos 70.

AD – Nossa, vocês vão ter que lançar isto agora (risos).

NF – E o Horst Stein é muito bom, com a orquestra de Frankfurt. Há outra que não saiu porque não deixaram. Os descendentes do [Rafael] Kubelík impediram. É a Totentanz [de Franz Liszt]. Foi uma gravação ao vivo em 1974. A gravação está ótima, também o som está fantástico. Essas são duas que eu me lembro.

AD – Vocês foram aos acervos das rádios ver isto?

NF – Sim.


Capa do CD duplo "Nelson Freire - Radio Days" (Decca)

AD – Eu ia perguntar o que você está estudando no momento, mas acho que a resposta é óbvia.

NF – É, agora são esses Bachs. 4º de Beethoven que vou tocar em Boa Esperança. Dia 2 de agosto, em praça pública. [assista aqui à cobertura deste evento, pelo programa Harmonia, da Rede Minas]

AD – Você pretende dar um concerto para lançar esse CD de Bach? Em geral você faz isso?

NF – Em geral, não. Às vezes acontece, mas não é muito planejado. Eu sou muito pouco burocrático (risos). Acho que herdei isso da Guiomar, ela também era assim.

AD – Há alguma obra que você gostaria de aprender e que ainda não tocou? (Embora “aprender” no seu caso seja muito relativo, devido a sua excelente leitura)

NF – Não, a gente só sabe uma obra depois que toca em público! Há uma que toquei só uma vez em público, uma Sonata de Prokofiev, a No.5. Pouca gente toca, toquei em Marselha uma vez, há muitos anos. Há uma Sonata de Scriabin que também só toquei uma vez, a 3ª. E a 9ª [Sonata de Scriabin] que eu já ameacei, mas nunca toquei. Há tanta coisa.. Agora estou com esse disco Bach e há tanta coisa agora para fazer, há os Concertos de Beethoven que eu tenho que aprender. Vou gravar todos os Concertos [além do No.5]. Há algo que eles estão querendo muito, um disco de encores [peças de bis], então há muita coisa.  Gosto dessas pecinhas, das transcrições de Liebesleid [de Kreisler], por Rachmaninoff, há umas do Godowsky também...

AD – O que do Godowsky? Você já tocou a paráfrase sobre O Morcego [de Johann Strauss].

NF – Essa não vou incluir, porque é muito difícil hoje em dia (risos). Sabe que a Guiomar tocou muito isso? Do Godowsky há muita coisa, umas pecinhas de Rameau. Há também Schubert, Rosamunde. Há umas peças de Rachmaninoff também, soltas.

AD – Falando em Schubert, eu não me lembro de ouvir você tocando as Sonatas de Schubert.

NF – As Sonatas eu nunca toquei.

AD - Nunca teve vontade? A No.21 em si bemol.

NF - Se eu tocasse, eu gostaria de tocar essa.

AD – Sobre os concertos do Beethoven, que irá gravar, será que teremos uma Sonata acoplada a cada um também?

NF – Não sei ainda como vai ser, ou outro Concerto. Eles querem que eu toque também a Fantasia Coral [de Beethoven]. Toquei só uma vez, na França. Existe um vídeo, mas não se consegue, com [Marek] Janowski regendo.

AD – Que interessante. O Brasil possui uma das tradições pianísticas mais importantes do mundo. Tendo produzido, além de você, pianistas como Novaes, Tagliaferro, Rudge, Estrella, Klein, Schic...

NF – Eu toquei para Antonietta Rudge quando era pequeno. Toquei o Islamey [de Balakirev] para ela. Era uma gracinha de pessoa. Eu me lembro que foi em uma casinha modesta em São Paulo. Meio escura assim, uma sala de piano.

AD – E você a ouviu tocando também?

NF – Não, só eu toquei para ela.

AD – E temos também uma poderosa nova geração que inclui Cristian Budu, Fábio Martino, seriam já pelo menos cinco gerações de pianistas internacionais, desde o início do século XX. Paralelamente, temos um universo riquíssimo de composições brasileiras escritas para piano, desde o século XIX até hoje, sendo as de Villa-Lobos algumas das mais aclamadas. Como você vê a participação do Brasil na cultura do piano? Para você, como o Brasil se encaixa nesse panorama do piano no mundo?

NF – Já se encaixou de uma maneira incrível. Hoje em dia, não vejo assim tanto...  Quando se olha a divulgação desses concursos... Acho que hoje em dia não há muito incentivo nem possibilidades. Quando se lê o livro do Theatro Municipal [do Rio de Janeiro], um livrão dos primeiros 60 anos [“Memórias e Glórias de um Teatro”, de Edgard de Brito Chaves Jr., 1971], há 17 recitais do Rubinstein com programas diferentes na mesma temporada, [Alexander] Brailowsky, [Claudio] Arrau, Richard Strauss, [Walter] Gieseking, e havia um cultivo, assim... No meu tempo de criança também, havia concursos para os jovens também. Mas é outra época hoje.


Capa do livro "Memórias e Glórias de um Teatro”, de Edgard de Brito Chaves Jr., 1971.

AD – Você falou que o Brasil já se encaixou. Como você vê então, do ponto de vista histórico, a participação do Brasil no panorama do piano?

NF – Foi grande, não só do Brasil, mas também dos pianistas da América Latina. Argentina e Chile, como Claudio Arrau, Rosita Renard. A época da Guiomar foi incrível, com Magdalena [Tagliaferro]. Depois houve também a geração intermediaria com muitos pianistas, a Yara Bernette, Anna Stella [Schic], o próprio Jacques [Klein], e depois veio a minha geração. E agora tem alguns, mas não é mais a mesma época.

AD – No Concurso Nelson Freire - OSB Jovens Solistas (com sua participação na banca de jurados), você pôde conhecer novos talentos.

NF – Sim. Dos jovens você citou dois, tem mais algum?

AD – Recentemente a Revista Concerto fez uma edição dedicada à nova geração de pianistas, listando uns 11.

NF – Ah fez, eu vi. Mas esses concursos de hoje, como o Concurso Tchaikovsky, ou o Concurso Chopin - os asiáticos de 16 e 17 anos, os russos também, o nível também é uma coisa que... Já teve. A cultura pianística do Brasil caiu, não existem mais concertos. Por exemplo, no Theatro Municipal [do Rio de Janeiro], recital de piano, não tem.

AD – Só piano e orquestra.

NF – E raríssimos. Vamos ver agora com a nova direção. Sobre os concursos, há  umas tentativas, o BNDES, mas não tem muita repercussão. No Concurso Internacional de 1957, tinha fila quilométrica em frente ao Theatro Municipal, tinha até polícia (risos). Você vê, a lista de brasileiros que tinha no meu concurso [de 1957], brasileiros e argentinos... Hoje não tem. No Concurso Tchaikovsky [deste ano, 2015] não havia nenhum brasileiro, nem no Concurso Chopin. E [antigamente] tinha aquelas coisas dos professores, as grandes personalidades de professores, uns fantásticos, outros não tão fantásticos, mas eram tradições, mesmo os que não eram tão geniais, mas tinha umas personalidades fortes. Os alunos de tal fulano... Como time de futebol um pouco. Hoje em dia um grande professor é o Eduardo Monteiro.


Capa da Revsita Concerto (Abril/2015)

AD – Para finalizar, eu gostaria de perguntar que mensagem você gostaria de deixar para os jovens pianistas brasileiros?

NF – Eu sou ruim de mensagens. Posso mandar um SMS? (risos). Tem que ser uma mensagem boa, não é?

AD – Que devemos recuperar a cultura pianística?

NF – Essa é uma mensagem. Eu espero que o entusiasmo que sempre houve no Brasil pelo piano não desapareça. É difícil, é uma carreira muito difícil. É difícil chegar, e depois mais difícil é continuar. Mas quando você é realmente apaixonado por música, então a gente vai em frente.

AD – Está ótimo, Nelson. Eu lhe agradeço imensamente por essa conversa, em nome de todos os seus fãs.