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Acervo do IPB

Biografia do pianista Fernando Lopes disponível no site da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (http://www.osmc.com.br/novo/noticias/308/fernando-lopes.aspx)

Biografia do pianista Fernando Lopes presente no encarte dos álbuns “Sonatas de Mozart”, “5 Concertos para Piano e Orquestra de Villa-Lobos” e “Fernando Lopes interpreta Mozart, Ravel, Vieira-Brandão e Ernest Widmer”.

Livro de candidatos do 1º Concurso Nacional de Piano na Bahia. 1958.

Nogueira, Isabel (org.) - História Iconográfica do Conservatório de Música da UFPel. Pelotas, 2005.

Obituário do pianista Fernando Lopes no site da UNICAMP (https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2019/03/08/morre-o-pianista-e-ex-professor-da-unicamp-fernando-lopes)
Atualizado em 03.04.2019
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Fernando Lopes

N. 1935
F. 8 de March de 2019
Por André Pédico e Alexandre Dias

Nasceu no Rio de Janeiro em 1935. Em sua cidade natal, iniciou seus estudos de piano aos nove anos com Cecília de Mendonça e depois aperfeiçoou-se com Arnaldo Estrella, fazendo parte de sua primeira geração de alunos.

Nos anos de 1951 e 1952, foi laureado com o 1º Prêmio do Concurso Recitalista de Música para a Juventude. Em 1952, diplomou-se no Conservatório Brasileiro de Música, e participou, no mesmo ano, do Curso de Alta Interpretação Musical ministrado por Magdalena Tagliaferro

Em 1953, apresentou-se no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (TMRJ) interpretando o Choro para 2 pianos de Claude Prey, juntamente com Alexandre Kellner.

Em 1956, obteve a primeira classificação como solista da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), o que resultou em sua estreia no TMRJ como solista de orquestra, interpretando o Concerto de Schumann com a OSB sob regência de Eleazar de Carvalho. Voltou a executar este concerto em 1960 em 1961 com a OSB sob regência de Howard Mitchell e depois Arthur Bosmans, respectivamente, ambas as vezes no TMRJ.

Em 1957, ficou em 8º lugar no I Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro, sendo o pianista brasileiro melhor classificado. Na final, interpretou um dos movimentos do Concerto No.2 de Brahms. Neste concurso, recebeu os prêmios: Melhor intérprete de mazurcas de Chopin, Prêmio Oscar Arany, Prêmio Presidente da República, Prêmio Embaixada da Polônia, Prêmio Schwartzmann. Neste mesmo ano, solou o Concerto No.2 de Brahms completo com a Orquestra Sinfônica Brasileira sob regência de Francisco Mignone. E ainda neste ano, foi um dos membros fundadores da União dos Músicos do Brasil.

Em 1958, ficou em segundo lugar no 1º Concurso Nacional de Piano da Cidade da Bahia, empatado com o pianista Arthur Moreira Lima, vindo a ganhar o prêmio “Reitoria da Universidade da Bahia”. Neste ano, foi convidado a participar de um curso de aperfeiçoamento em música em São Petesburgo (na época Leningrado), URSS.

Paralelamente a sua carreira de intérprete, desempenhou importante papel pedagógico. Em 1959 e 1960, assumiu as atividades de professor de piano e diretor do Conservatório de Música de Pelotas (RS), onde lecionou também História da Música e Música de Câmara. Em 1959, pouco antes do falecimento de Heitor Villa-Lobos, realizou nesta instituição a conferência "Villa-Lobos em nosso cenário artístico-musical", com a colaboração do Corpo Coral do Conservatório de Música de Pelotas, sob regência de Lourdes Nascimento.

Em 1960, realizou sua estreia em recital solo no TMRJ interpretando obras de Frescobaldi-Respighi, Mozart (Sonata No.11), Villa-Lobos (Impressões seresteiras), Brahms e Chopin. Neste ano, também gravou na Rádio MEC a Sonata para viola e piano de Camargo Guarnieri e a Fantasia para viola e piano de Francisco Mignone com o violista Lionello Forzanti. A gravação da Sonata de Guarnieri foi lançada em disco comercial pelo selo SOARMEC em 1998, em um volume dedicado a Camargo Guarnieri.

Com bolsa do governo brasileiro, estudou na Áustria (Viena e Salzburg) e Alemanha (Colônia) com o pianista Bruno Seidlhofer, entre 1960 e 1961. Em 1961, obteve o Diploma de Mérito no Concurso Internacional de Piano em Bolzano, na Itália, e também conquistou o Grande Prêmio Schelling, no Concurso Internacional de Piano de Genebra, no qual ficou empatado em 2º lugar com o francês Jean Derbès na categoria masculina.

Em 1962, de volta ao Brasil, apresentou-se em Curitiba (PR) pela Sociedade de Cultura Artística Brasílio Itiberê com obras de Mozart, Schubert (Sonata em lá menor Op.164), José Vieira Brandão (Estudo No.1), Bartok, e Brahms (Sonata No.1), e também apresentou dois recitais Chopin no TMRJ.

Nesta época, gravou seu primeiro LP intitulado “Fernando Lopes interpreta Mozart, Ravel, Vieira Brandão, Ernst Widmer”, lançado pela JS Discos, incluindo as Variações sobre um minueto de Duport, de Mozart; Alborada del gracioso, de Ravel; Estudo No.1, de José Vieira Brandão; e Concatenação, Ernst Widmer.

De 1962 a 1975, foi diretor da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (Seminários Livres de Música), em Salvador (BA), ocupando também a cátedra de professor de piano.

Em 1963, solou o Concerto No.1 de Brahms com a orquestra da Universidade da Bahia, em Salvador, e em 1965, solou o Concerto No.2 de Brahms com a OSB sob regência de Isaac Karabtchevsky no TMRJ.

Em 1966, juntamente com a Arnaldo Estrella, realizou a estreia do Samba rítmico (segunda versão), de Francisco Mignone, para dois pianos, em Salvador (BA).

Em 1967, realizou a estreia mundial de um dos concertos para piano e orquestra de José Siqueira com a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro sob regência do compositor.

Ainda na década de 1960, ministrou uma série de cursos públicos sobre “Técnica e interpretação pianística” em diferentes cidades do Brasil.

Desenvolveu importante carreira internacional, apresentando-se em países como Portugal, Espanha, Itália, França, Romênia, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Suíça e Estados Unidos. Por suas performances, o pianista recebeu eloquentes críticas. John Rockwell, do The New York Times, afirmou: “ele está  no nível dos maiores pianistas internacionais”, e o jornal londrino The Daily Telegraph destacou a “técnica monstruosa e a presença marcante” do pianista.  

Entre os maestros com quem trabalhou, destacam-se Eleazar de Carvalho, Isaac Karabitchevsky, Francisco Mignone, José Siqueira, Claudio Santoro, Roberto Duarte, Roberto Tibiriçá, Mário Tavares, Benito Juarez, Jamil Maluf, Victor Hugo Toro, Sergio Magnani, Pablo Komlós, Howard Mitchell, Carlos Veiga, Jean Meylan, Dietrich Erdmann, Johannes Hoemberg, Ludovic Bács e Nicolae Boboc, dentre outros.

Algumas das orquestras com que se apresentou ao longo da carreira foram: Orquestra Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, Orquestra Sinfônica da Universidade da Bahia e Sociedade Filarmônica de Juiz de Fora.

Durante toda sua carreira, dedicou-se à realização de gravações, que contemplam tanto o repertório nacional quanto internacional. Também dedicou-se com afinco à divulgação e gravação de obras contemporâneas brasileiras.

Entre 1971 e 1972, realizou a estreia mundial de duas obras de Ernst Widmer: Prismas e ENTROncamentos SONoros, ambas com a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia sob regência do próprio autor. Em 1972, realizou a 1º audição mundial da Toccata Op.25, de Lindembergue Cardoso.

Em 1973, apresentou-se em Nápoles, Itália.

Entre 1975 e 1991, foi professor de piano no Instituto de Artes da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) (SP), de que também foi diretor por duas ocasiões, formando gerações de pianistas.

Em 1976, ganhou o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) na categoria Solista. Neste ano, realizou a estreia do Tríptico, de Raul do Valle, a ele dedicada.

Em 1977, apresentou-se na Sala Cecilia Meireles em duo com o violinista Salomão Rabinovitz, e em duo com o violoncelista Leonard Rose. Com o primeiro, interpretou obras como a Sonata No.4 de Claudio Santoro, Sonata No.3 de Brahms e Sonata No.2 de Prokofieff, para violino e piano; e com o segundo interpretou obras de Francoeur, Debussy e Brahms. Neste ano, também realizou a estreia mundial de “Macaíra ou A pescaria fantástica”, de Almeida Prado, para cravo e piano a 4 mãos juntamente com Sonia Muniz e a cravista Helena Hollnagel durante a II Bienal de Música Brasileira Contemporânea na Sala Cecília Meireles, interpretação que foi lançada em LP.

Em sua atividade camerística, também colaborou com Maria Stader, soprano, e Hermann Baumann, trompista.

Em 1978, realizou sua estreia em Nova York, no Town Hall, com obras de Mozart, Brahms (Sonata No.1), Liszt (Sonata), Almeida Prado (Cartas celestes No.1).

Atuou no júri de concursos como o IV Concurso Internacional de Piano na Bahia (1964), VI Concurso Nacional de Piano da União dos Músicos do Brasil (1965), VIII Concurso Nacional de Piano da União dos Músicos do Brasil (1967) e I Concurso Nacional de Piano Lúcia Branco (1975).

Em 1979, juntamente com o oboísta Harold Emert, solou o Concerto amabile, de Henrique de Curitiba, com a Orquestra de Câmara da Rádio MEC sob regência de Mário Tavares durante a III Bienal de Música Brasileira Contemporânea. No mesmo evento, solou a obra Potyrom (Potyron), de Sérgio de Vasconcellos-Corrêa, a ele dedicada, com o Grupo de Percussão Agora.

Em 1980, interpretou os 24 Estudos de Chopin em recital no IBAM, Rio de Janeiro. Neste mesmo ano, gravou para a Funarte o LP pioneiro “O piano brazileiro de Carlos Gomes”, com obras então pouco conhecidas ou inéditas como A cayumba, Grande valsa de bravura, Mormorio, Uma paixão amorosa e as quadrilhas Cachoeira e Quilombo.

Em 1981, realizou a estreia mundial das Cartas celestes No.2, de Almeida Prado, no Auditório do Jockey Club, Rio de Janeiro, e também as interpretou na IV Bienal de Música Brasileira Contemporânea.

Em 1982, realizou a gravação das Cartas Celestes No.1 a No.6, de Almeida Prado, em um LP triplo lançado pelo Estúdio Eldorado, um marco na discografia de música contemporânea brasileira.

Por volta de 1983, participou de um dos volumes da série de LPs “Músicas e músicos de São Paulo”, interpretando a Canção Sertaneja e Encantamento, de Camargo Guarnieri, com o violinista Nathan Schwartzman.

Em 1984, gravou todos os cinco concertos para piano e orquestra de Villa-Lobos, juntamente com a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, sob regência de Benito Juarez. Esta caixa de 4 LPs, lançada de maneira independente, foi a primeira gravação mundial completa deste ciclo de concertos. A gravação das cadências de cada concerto também foi lançada em uma edição separada neste mesmo ano, pela gravadora da Unicamp, contendo um texto com análise das peças. Ainda neste ano, foi lançado pela Funarte (Documentos da Música Brasileira Vol.18) um LP com obras de Raul do Valle (Tríptico), Ernst Widmer (Concatenação, em uma nova gravação), Ernst Widmer (Suave Mari, Magno... Op.97), e Lindembergue Cardoso (Toccata para pianoforte), a partir de gravações suas realizadas ao vivo em 1976 durante o Panorama do Piano Brasileiro, na Sala Cecilia Meireles.

Em 1986, foi o segundo pianista brasileiro, depois de Guiomar Novaes, a gravar os 24 Estudos de Chopin em um LP lançado pela Unicamp, contendo também os dois cadernos das Variações sobre um tema de Paganini, de Brahms. Os estudos depois foram relançados em 1995 pelo selo L’Art.

Em 1990, gravou a integral das sonatas para piano de Mozart, lançada pela gravadora Eldorado em uma caixa de 4 CDs (por motivos desconhecidos, a Sonata No.15, em fá maior, K. 533, não foi incluída).

Em 1994, gravou as três Sonatas para violino e piano de Brahms com o violinista Ayrton Pinto.

Em 1997, solou o Concerto No.2 de Brahms com a Orquestra Sinfônica Municipal sob regência de Isaac Karabtchevsky em São Paulo. Também tocou o Quarteto Op.34 de Brahms com o Quarteto Bessler na Sala Cecília Meireles, Rio de Janeiro.

Em 1998, gravou o álbum Brasilianas, com o violinista Salomão Rabinovitz, contendo diversas peças brasileiras dos compositores Guerra-Peixe, Francisco Mignone, Pixinguinha, Carlos Almeida, Dante de Souza, Henrique Oswald, Radamés Gnattali, Ernst Widmer (Duo Op.127 – Scherzando), Ernesto Nazareth, Claudio Santoro (Sonata No.4 para violino e piano), Camargo Guarnieri, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Dorival Caymmi.

Em 1999, participou de um CD dedicado ao compositor baiano Sylvio Deolindo Fróes interpretando as obras para piano solo Dança das folhas secas, Dança negra (Danse nègre), Domingo na aldeia, O que diz a selva ao mar, Prelúdio, Queixas da velha árvore e Vozes d´alva.

Nesta época, gravou duas das maiores obras do repertório romântico para piano: a Sonata de Liszt e a Fantasia de Schumann, lançadas em um CD independente.

Em 2001, solou o Concerto No.1 de Liszt com a Orquestra Petrobras Pró Música (OPPM) sob regência de Roberto Tibiriçá na Sala Cecilia Meireles. Neste ano, foi um dos pianistas a apresentar o Hexameron, de Liszt, juntamente com José Carlos Cocarelli, Gilberto Tínetti, Sônia Maria Vieira, Sônia Goulart e Linda Bustani no TMRJ.

Em 2003, recebeu mais uma vez o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), desta vez na categoria Melhor instrumentista.

Em 2005, apresentou-se à frente da OSB sob regência de José Maria Florêncio no TMRJ.

Em 2010, solou o Concerto No.2 de Brahms com a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas sob regência de Jamil Maluf, no Centro de Convivência Cultural (Campinas, SP). Neste mesmo ano, apresentou novamente o Hexameron, de Liszt, juntamente com Arthur Moreira Lima, Jean-Louis Steuerman, João Carlos Martins, Gilberto Tinetti e José Feghali no TMRJ.

Em 2011, solou o Concerto No.1 de Liszt com a Orquestra do Teatro São Pedro, em São Paulo, sob regência de Roberto Duarte. Neste ano, realizou sua última gravação comercial, com o conjunto Ars Brasil interpretando obras camerísticas de Henrique Oswald, em um CD triplo contendo o Quinteto com piano Op.18, os Quartetos com piano Op.5 e Op 26, o Trio com piano Op.45, a Sonata Fantasia para piano e violoncelo Op.44 e a Elegia para violoncelo e piano.

Em 2012, voltou a apresentar o Hexameron, de Liszt, juntamente com Gilberto Tinetti, Giulio Draghi, Flávio Augusto, Sônia Goulart e Paulo Gori no TMRJ.

Sua última apresentação pública foi em março de 2013, com a Orquestra Sinfônica de Campinas, quando tocou o Concerto de Schumann, sob a regência de Victor Hugo Toro.

Em 2018, o pianista Mauricy Martin, seu ex-aluno, produziu um vídeo em homenagem a Fernando Lopes durante o durante o Performa Clavis Internacional 2018 (Instituto de Artes da Unicamp) com depoimentos de colegas, amigos e ex-alunos como Antonio Lauro Del Claro, Carlos Wiik, Hideraldo Grosso e Eduardo Paiva. Também foram mostradas fotos e documentos do arquivo pessoal do pianista.

Era considerado pelo crítico Antonio Hernandez como “a maior potência pianística do século XX, depois de Claudio Arrau”, e que dispunha “daquela técnica transcendente em condições de realizar à mais pura luz as coisas mais complicadas escritas para o seu instrumento. Tem também imaginação, cultura e sobretudo um nobre caráter, condição também indispensável à grandeza artística”.

Segundo Sylvio Lago, era “excelente intérprete dos românticos e brasileiros, os traços significativos da arte pianística de Fernando Lopes caracterizam-se pela ampla sonoridade, precisão e belas definições rítmicas, além de absoluta clareza do fraseado e uma rara capacidade de mobilização dos recursos expressivos”.

Fernando Lopes faleceu em Campinas, em 8 de março de 2019.

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Peças dedicadas a Fernando Lopes: Cartas Celestes No.4 (“ao amigo Fernando Lopes, grande viajante dos espaços siderais”), Momentos No.32 a No.37, Prelúdio No.8, e Sonata No.3 de Almeida Prado; Tríptico (I. Flutuações; II. Reticências; III. Alumbramento), de Raul do Valle; Potyrom (Potyron), de Sergio de Vasconcellos-Corrêa.